A premissa romântica de que a militância partidária nasce do afeto por um projeto de país perdeu força diante dos dados contemporâneos de comportamento eleitoral. Embora candidatos e militantes exaltem as virtudes de seus líderes e programas, diversos estudos mostram que, para uma parcela expressiva dos eleitores mais engajados, a principal força de mobilização não é a admiração pelo próprio grupo, mas a rejeição ao adversário.
Esse fenômeno, conhecido como polarização afetiva, descreve uma mudança importante nas democracias contemporâneas. O eleitor passa a definir sua identidade menos pelo grupo ao qual pertence e mais pelo grupo ao qual se opõe. Em muitos casos, o medo da vitória do rival torna-se um estímulo mais poderoso do que o entusiasmo pelo próprio candidato.
1. O combustível do engajamento: o “ódio ao rival”
Estudos de comportamento eleitoral mostram que o chamado afeto negativo exerce influência crescente sobre a participação política. Para muitos militantes, impedir a vitória do adversário produz maior mobilização do que simplesmente promover as qualidades do próprio partido.
Cerca de 36% dos eleitores politicamente mais ativos admitem votar principalmente para impedir a vitória do candidato que mais rejeitam — um comportamento conhecido como voto de veto. (Datafolha; Cesop/Unicamp; Opinião Pública – SciELO).
As redes sociais ampliaram esse mecanismo. Estudos mostram que mensagens de indignação, condenação moral e ataques ao adversário produzem, em média, 20% mais engajamento do que conteúdos centrados apenas na apresentação de propostas. (Center for Social Media and Politics – NYU).
O amor por um líder encontra limites naturais. A rejeição ao adversário, ao contrário, pode ser continuamente renovada por novos episódios de conflito.
2. A anatomia dos exércitos partidários
Apesar da impressão de que toda a sociedade vive permanentemente dividida, a militância mais ativa representa apenas uma parte do eleitorado.
Levantamento da FESPSP (2026) estima que 31% dos brasileiros apresentam polarização afetiva intensa — forte identificação com um polo político acompanhada de elevada rejeição ao outro. Os 69% restantes distribuem-se entre moderados, indiferentes, apáticos ou eleitores críticos aos dois campos.
Esse núcleo mais mobilizado organiza-se em duas frentes.
A primeira é a militância virtual. Mais jovem, dinâmica e de baixo custo de entrada, alimenta-se dos ciclos diários de indignação produzidos pelas redes sociais e por seus algoritmos.
A segunda é a militância presencial. Em geral mais madura e territorialmente organizada, estrutura-se em partidos, igrejas, sindicatos, associações e movimentos locais. Sua capacidade de mobilização decorre menos da velocidade e mais da permanência dos vínculos sociais. (Banco Midiapolis).
Embora utilizem estratégias diferentes, ambas compartilham uma percepção semelhante: a derrota eleitoral deixa de ser vista como uma simples alternância democrática e passa a ser interpretada como uma ameaça ao modo de vida do grupo.
Quando essa percepção se instala, a política deixa de ser apenas uma disputa por governos e transforma-se em uma disputa por identidade.
3. O paradoxo dos extremos: por que alguns eleitores mudam de lado?
Talvez a maior demonstração de que a política não é movida exclusivamente pela afinidade ideológica esteja na migração de parte do eleitorado entre líderes situados em polos aparentemente incompatíveis.
Se o engajamento nascesse apenas do amor a um programa de governo, esse movimento seria raro. No entanto, ele ocorre com frequência maior do que o senso comum costuma admitir.
Uma das explicações encontradas pela literatura é que parte desse eleitorado não está profundamente vinculada a uma doutrina política específica. Seu principal elo é a rejeição ao sistema político ou às elites que considera responsáveis pelos problemas do país.
Quando um líder deixa de representar essa ruptura — ou passa a ser percebido como integrante do próprio establishment — abre-se espaço para outro personagem, ainda que situado no extremo oposto do espectro ideológico.
Não ocorre necessariamente uma conversão intelectual. O que muda é o alvo principal da insatisfação.
Essa dinâmica ajuda a compreender por que movimentos populistas de orientações distintas conseguem mobilizar perfis sociais semelhantes. Apesar das diferenças programáticas, ambos costumam apresentar a mesma narrativa: um povo honesto enfrentando uma elite vista como distante, privilegiada ou corrupta.
O personagem muda. A estrutura emocional da mobilização permanece surpreendentemente parecida.
Conclusão: política, identidade e sobrevivência
A política continua sendo um espaço de ideias, propostas e programas. Entretanto, tornou-se também um espaço onde emoções coletivas exercem influência decisiva.
Quanto maior a polarização afetiva, maior tende a ser o peso da identidade na decisão eleitoral. O adversário deixa de ser apenas alguém que pensa diferente e passa a ser percebido como uma ameaça moral, cultural ou institucional.
É nesse ambiente que prosperam discursos cada vez mais radicais, campanhas permanentes e redes sociais organizadas em torno do conflito.
Isso não significa que o amor por um projeto político tenha desaparecido. Significa, sim, que, para uma parcela expressiva da militância contemporânea, a rejeição ao adversário tornou-se um fator de mobilização ainda mais poderoso.
Os dados disponíveis apontam nessa direção. Quando o afeto negativo supera o afeto positivo, a convenção partidária deixa de ser apenas uma celebração democrática e transforma-se, cada vez mais, em um ritual de fortalecimento do próprio grupo diante de um adversário percebido como ameaça permanente.
Talvez esse seja um dos maiores desafios das democracias do século XXI: preservar o pluralismo político sem permitir que o adversário seja convertido em inimigo e que a disputa eleitoral se transforme em um conflito permanente.
Newsletter Rui Guerra
A arquitetura dos fatos
Fontes: FESPSP (2026); Datafolha; Cesop/Unicamp; Opinião Pública (SciELO); Center for Social Media and Politics (NYU); Banco Midiapolis.
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