O resíduo se movimenta e cresce 

Em quase todas as eleições em dois turnos se observar um paradoxo: quem decide o vencedor é o eleitor de quem perdeu.

Chama-se aqui de resíduo o conjunto dos votos dados, no primeiro turno, aos candidatos que ficaram pelo caminho. No segundo turno, esse eleitor fica sem o seu nome na urna e precisa escolher entre os dois que sobraram.

A TESE: o resíduo se movimenta e cresce

Em 2026, o resíduo é cerca de três vezes maior que a distância entre os dois líderes nas pesquisas. Nenhum dos dois vence sem ele.

A eleição será decidida, portanto, pela proporção em que esse voto órfão se dividir. Quatro evidências sustentam essa afirmação.

PRIMEIRA EVIDÊNCIA: O RESÍDUO TEM DIREÇÃO

Os resultados oficiais do TSE mostram um padrão que se repete desde 1989: a maior parte do resíduo vai para o segundo colocado do primeiro turno, e não para o líder.

Faz sentido. Quem não votou no líder quando tinha uma dezena de opções já disse, de certo modo, que não o queria.

O resíduo é, antes de tudo, um voto contra o líder. Em 2018 e em 2022, o segundo colocado ficou com a maior parte dele em quase todos os estados, inclusive naqueles em que perdeu.

SEGUNDA EVIDÊNCIA: A DIREÇÃO SE FIRMA A CADA ELEIÇÃO

Em 2010, pouco mais da metade do resíduo seguiu para o segundo colocado. Em 2022, foram sete em cada dez votos. A fidelidade subiu a cada eleição, sem recuo.

A razão está na própria disputa, que se organizou em dois campos nítidos. O eleitor do resíduo passou a saber com mais clareza de que lado da rua mora.

Bahia e Pernambuco mostram isso melhor que qualquer cálculo. Em 2018, estiveram entre os estados onde o resíduo mais se concentrou no segundo colocado. Em 2022, entre os que menos se concentraram.

O eleitor era o mesmo. O que mudou foi o campo político do segundo colocado.

TERCEIRA EVIDÊNCIA: O TERRENO REGULA A INTENSIDADE

Onde o candidato já era forte no primeiro turno, recebeu quase todo o resíduo. Onde era fraco, cerca da metade.

É como o vento que sopra na mesma direção no país inteiro, mas com mais força onde o relevo ajuda. Essa foi, de longe, a relação mais forte encontrada nas 27 unidades da Federação.

QUARTA EVIDÊNCIA: O ELEITOR DE 2026 CONFIRMA

Os institutos perguntam diretamente ao eleitor em quem ele votaria no segundo turno.

Feita a conta inversa, essas pesquisas mostram o resíduo dividindo-se hoje em pouco mais de seis votos para o segundo colocado e pouco menos de quatro para o líder.

O presente confirma o passado. Por isso esta análise adota como referência a taxa de 63,5%, a que mais se aproxima do que o eleitor deste ano declara.

A taxa real deve ficar entre a média histórica e a de 2022: aproximadamente, entre seis e sete em cada dez votos.

A CONTA QUE DECIDE

As pesquisas da última semana indicam que o segundo colocado precisa de cerca de dois terços do resíduo para empatar o jogo.

Esse ponto de empate cai dentro da margem. Com a taxa de referência, o líder conserva uma vantagem inferior a um ponto percentual.

Bastam poucos pontos a mais de fidelidade para o segundo turno mudar de dono.

A eleição presidencial de 2026 será decidida nessa faixa estreita.

Quem quiser antecipar o desfecho não precisa olhar para o líder. Basta acompanhar, estado por estado, para onde caminha o voto de quem perdeu.

Fontes: resultados oficiais do TSE (eleições presidenciais de 1989 a 2022) e pesquisas eleitorais registradas até 01/10/2026.