Há trilhas que parecem naturais, mas foram abertas de propósito. Quem observa com atenção percebe os galhos cortados à mão, o mato afastado com método, o caminho facilitado para que ninguém desconfie. Letreiros e convites generosos iluminam o caminho. No fim dele, não passa de um fosso.
O Brasil caminha por uma trilha assim.
Se nada mudar, 2027 poderá oferecer ao país um quadro raro: Lula na Presidência da República; Alexandre de Moraes na presidência do Supremo Tribunal Federal, cargo que, pelo rodízio da Corte, lhe caberá no segundo semestre; com o apoio de Lula, Davi Alcolumbre no comando do Senado e Hugo Motta à frente da Câmara.
Os três Poderes, em suas quatro cadeiras mais altas, ocupados por nomes que estiveram no centro das maiores controvérsias institucionais dos últimos anos de escuridão.
Não se trata de pessoas isoladas, mas de um arranjo. Quando os comandantes do Executivo, do Judiciário e do Legislativo passam a se proteger mutuamente, o sistema de freios e contrapesos deixa de atuar e passa apenas a pesar. E pesa sobre o cidadão.
Que moral, que honra, que esperança podem sair dessa toca?
É justo reconhecer: a alternativa não é o Colegiado da Santa Ceia. Não há santos disponíveis na política brasileira, e quem promete pureza costuma entregar outra coisa. O ponto não é trocar demônios por anjos. É impedir que um mesmo grupo feche todas as portas ao mesmo tempo.
O caos raramente chega anunciado. Vem em doses: uma decisão monocrática aqui, um acordo de gabinete ali, uma conta que ninguém explica, um silêncio conveniente. Quando o cidadão finalmente percebe, o fosso já está sob os pés.
Há quem diga que talvez seja este o golpe final capaz de despertar uma nova reação popular. Pode ser. Mas a reação de que um país civilizado precisa não é a das ruas em fúria. É a das urnas conscientes, da imprensa vigilante, das entidades que não se calam, do eleitor que cobra.
A revolta que funciona é a que se organiza.
No próximo domingo, 4 de outubro, o Brasil vai às urnas. Não escolherá apenas o presidente, mas também dois terços do Senado e toda a Câmara, exatamente as Casas que, em fevereiro, elegerão seus novos comandantes. Cada voto para o Legislativo é também um voto sobre quem se sentará naquelas cadeiras.
Seja precavido. Olhe para os galhos cortados antes de seguir a trilha. Informe-se, converse, vote com atenção redobrada e acompanhe o que seu eleito fizer depois.
Colaborar com o país, hoje, é recusar o caminho facilitado.
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