Nossos amigos estão indo embora. A fila está encurtando. Estamos revivendo tudo de bom que Deus nos proporcionou nesses oitenta e cinco anos.

No tempo em que os casamentos duram pouco, estamos casados, eu e meu marido, desde 1963. São anos e anos de convivência. O mérito é dos dois e do amor que sentem, um pelo outro.

Seria irresponsabilidade minha dizer que não houve momentos difíceis, de um lado e do outro. Enfrentamos tudo com muita coragem. E sobrevivemos, tentando conservar o amor próprio.

Esperamos agora pela hora da separação, ou seja, o momento em que Deus levará um ou outro. Eu não sei como reagirei, mas quero ser forte.

Na vida profissional, nem sempre foi um mar de rosas. As perseguições foram muitas, mas as vitórias foram maiores. A justiça dos homens, apesar de lenta, sempre me ajudou. Ainda hoje, com oitenta e cinco anos, continuo JUDICIALIZANDO e esperando resposta!

Os amigos completam minha vida. Ainda hoje, uma velha amiga me ligou: Estou com saudades, preciso vê-la. Vamos marcar um café!

Entrei em contato com uma amiga de meu pai, que ajudou minha irmã. Tem mais de noventa anos e mora no Rio de Janeiro. Como não vou ao Rio este ano, convidei-a para vir a Paripueira. Sorriu e me mandou uma figurinha.

Não posso falar de amigos sem me lembrar de Ana Soriano. Deus a levou, mas deixou seus filhos como meus amigos. Hoje, a minha nefrologista é a doutora Ana Katarina, nossa querida Kaká. Beijos para os três sobrinhos queridos.

E a fila vai andando! Recentemente, perdemos um amigo querido em Brasília. De vez em quando, recebemos a notícia da morte de um companheiro meu ou de Rubião. Sentimos muito e esperamos nossa hora.

O bom da velhice é ter maturidade para curtir o que amealhamos durante a vida. Toda terça-feira, escrevo o meu artigo na varanda de minha casa olhando para o mar, ouvindo o canto dos pássaros, o latido dos cachorros, comendo cajarana e tomando água de coco. Eu e meu marido trabalhamos muito para ter conforto na velhice.

Para tanta felicidade, precisamos de médicos, de exames laboratoriais, de remédios. Nossa agenda é cheia de consultas médicas e de idas aos laboratórios. Temos um plano de saúde que nem sempre nos socorre, mas não é dos piores.

Aliado a tudo isso, vêm os problemas profissionais, as ações na justiça. Diálogos com advogados, espera pela decisão dos juízes. E lá vamos nós, andando na fila!

A maior alegria dos dois idosos de oitenta e cinco anos é a família. Tivemos quatro filhos saudáveis, onze netos, cinco bisnetos. Apesar de morarem longe de nós, sempre dão notícias e conseguimos encontrar com alguns. Vibramos com as vitórias de uns, lamentamos o aperreio de outros.

Quem pode tirar de nós tantas coisas boas? Tive o azar de trabalhar numa casa política onde existem demônios que perseguem idosos, mas eles não podem roubar nossa felicidade.

Continuamos na fila dos velhinhos, esperando nosso dia, mas vivemos bem, curtindo o carinho e o amor dos que nos admiram.

Só esperamos que a justiça dos homens puna os maldosos que perseguem os idosos e Deus recompense aqueles que sempre viveram no caminho do bem. 

Existe uma lei que nos protege: ESTATUTO DO IDOSO.

Deus na causa!